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Caos, complexidade e 1984
Por:
Fernando Radin
Bueno
"Os homens aprenderam com Deus a
criar, mas foi com o Homen que deus aprendeu a amar." Cordel do Fogo
Encantado
O presente texto tem o intuito de traçar um paralelo entre a
teoria do caos e a brilhante obra prima de Eric Arthur Blair, "1984". Com o
pseudônimo de George Orwell, Blair descreve uma distopia, uma utopia às avessas,
em que o indivíduo se encontra cada vez mais sufocado pelo sistema, anulado pela
sua própria espécie, culminando assim em um beco sem saída para o espírito de
liberdade. É importante notar uma influência dos trabalhos de Kafka, como "o
processo" e "metamorfose", em que o indivíduo também não se encontra na melhor
das situações, sendo o desfecho destes livros também uma distopia. Tudo se passa
em um ambiente que gira em torno de uma guerra perpétua entre três blocos
mundiais (Eurásia, Lestásia e Oceania), marcada pelo Estado autoritário e
dominador, deixando assim pouco espaço de manobra para o indivíduo. A trama se
desenrola como em uma música crescente, culminando em uma frase que representa a
doutrina do não-ser, a negação da vida e a anulação da liberdade: "2+2=5". Como
não poderia deixar de ser, paralelos com a atualidade se fazem mais do que
necessários, pois "1984" não é um livro de ficção, é sim um enfoque da realidade
que, apesar de escrito em 1948, aponta visionariamente para muitos fatores que
hoje se fazem presentes, como o vácuo existencial do indivíduo e o "espírito de
rebanho", este apontado pelo filósofo Nietzsche ainda no século XIX; como ele
mesmo disse, "alguns homens nascem póstumos".
1. Da ordem ao caos
Quando se pensa
no significado da palavra caos logo de cara associamos à desorganização e
bagunça; o adjetivo caótico é visto como pejorativo pela maioria das pessoas. É
o oposto de ordem, o antônimo de controle, em outras palavras, representa tudo
que deve ser evitado tanto na esfera individual quanto em escala social, sendo o
repúdio ao caos o paradigma dominante na política e na economia. Uma sociedade
anarquista é caótica, já um governo com bases democráticas organizado,
correto?!
Não precisamos sair muito da caverna para percebermos o quanto
estamos atolados no caos - quero deixar claro desde já que a palavra caos detém
um sentido duplo (senão triplo, ...), sendo sua própria interpretação caótica
(!), podendo tanto denotar uma notória desordem quanto um determinismo altamente
complexo e sensível às mudanças nas condições iniciais - também não é necessário
muito esforço para se dar conta da queda vertiginosa que a humanidade tem
sofrido nestes últimos séculos, uma verdadeira espiral decrescente despencando
conforme a queda de um cometa. Os atentados às torres gêmeas, as invasões
inconseqüentes dos E.U.A e a explosão irracional de nova religiões são apenas um
reflexo do vácuo existencial deixado por nós em nós mesmos; essa busca por
segurança e verdades prontas e fáceis leva a um fanatismo e alienação
incomensuráveis, de efeitos apocalípticos.
Assim como Orwell
brilhantemente soube descrever, a incompetência que o ser humano tem em
sustentar-se é ao mesmo tempo lindo e patético; sem nossos dois minutos de ódio
não agüentaríamos levantar numa segunda-feira de inverno e enfiar a cabeça
debaixo do chuveiro: "dane-se!! Quero voltar pro meu sonho. Onde é que eu estava
mesmo?". Precisamos saber que fazemos parte de algo maior que nós mesmos, pois
somos incapazes de nos agüentar sobre nossas próprias pernas; precisamos de
muletas, não porque não sabemos andar, mas porque temos medo do peso que a
autonomia traz ao indivíduo. Sartre dizia que o ser humano se esconde de si
mesmo na sociedade, eu também nunca acreditei que o homem fosse um ser sociável,
considerava-o um covarde que não agüentaria o tranco da existência sozinho e por
isso renunciava a si mesmo em troca de uma vida indolente e previsível;
diabolicamente contraditório.
Escondendo-se atrás do artifício racional,
o homem diz-se detentor da característica ímpar e suprema da natureza,
condenando todo o restante dos seres vivos a uma escala inferior em uma pirâmide
criada por ele e "logicamente" para ele mesmo. Parece óbvio então que o homem
fora feito à imagem e semelhança de Deus, já que encontramos em ambos os mesmos
traços de fraquezas emocionais. Só sabemos quem é o demônio e quem é Deus
através de uma visão unilateral da história, que descarta o argumento
contraditório e valoriza quem aceita sem pensar nem contestar (chamam isso de
fé, como se tê-la fosse assim tão fácil), reduzindo-nos novamente a meros
animais irracionais. Afinal não temos orgulho da nossa razão? Todo o especismo
está baseado nisso!
Como a mosca que aceita o convite da aranha a
espécie humana viu-se tapeada pelo que ela mais acreditava, sendo o indivíduo o
começo e o fim de todo esse sistema kafkaniano e assustadoramente sensual.
Parece que o ser humano não confia no homem e para produzir precisa de
incentivos divinos, daqueles do tipo: "Deus é perfeito e te ama!"; "Jesus morreu
por nós!"; "O Grande Irmão zela por ti!!". Quantas vezes já não nos sentimos
como Winston, preso em um universo claustrofóbico e irreversível, trabalhando
dia a dia para que cada vez seja mais difícil escapar. Sinto muita semelhança
quando penso nos dicionários de novilíngua, que cada ano são mais finos,
inversamente proporcional ao sentimento de orgulho das pessoas ao comentarem tal
assunto. As línguas de menor força e os dialetos de várias tribos espalhadas
pelo mundo estão desaparecendo pouco a pouco, a cada ano nossa diversidade
cultural fica mais fina e nos sentimos orgulhosos dos progressos do mundo
globalizado, vestimos a máscara de Maquiavel ao penhorarmos nossa cultura em
troca de migalhas.
A humanidade caminha para um futuro extremamente
linear, no sentido em que cada vez mais "afunilam" nossas escolhas e
possibilidades de manifestação individual; basta olhar para a chamada "indústria
cultural" e ver no que ela transformou a música, a literatura e todas as formas
de expressão humana, reduzindo o arco-íris a manifestações de preto e branco.
Não devemos, contudo, ser duros demais com nós mesmos, pois platonizamos demais
nossa espécie e nossos adjetivos, sofrendo assim a dura realidade e imperfeição
do mundo inteligível que estão inerentes à decepção.
Estamos literalmente
escorregando nossa razão por um funil, abreviando-a de forma que, no fim do
túnel, não nos sobre nada além de convenções impostas e comodismos alienantes.
Os dogmas não precisam ser necessariamente religiosos, podem ser morais, sociais
ou familiares, completando assim o ciclo de objetivação do ser humano rumo ao
"espírito de rebanho", acepção descrita por Nietzsche como um fenômeno de massa
que reduz os seres humanos, na medida que sufoca suas escolhas e converge suas
ações rumo ao previsível e esperado, não havendo assim nenhuma reação que altere
o status quo. Devemos então, segundo Nietzsche, promover uma "revalorização dos
valores", purificando-nos dos conceitos carcomidos e desprendendo-nos do jugo do
conservadorismo; é necessário uma valorização maior do indivíduo, sua
sobreposição às convenções que barrem sua auto-suficiência. Não usamos muletas
porque mancamos, usamos devido a nossa falta de confiança e intimidade para com
o espelho, pois, se olharmos bem, não somos tão feios assim.
"Siga a
estrada de tijolos amarelos!!!"
De acordo com a
teoria da complexidade o saber não é algo que possa ser colocado em caixas, isto
é, não pode ser fragmentado ou limitado por convenções, mesmo porque ele está em
constante desenvolvimento, é um processo dinâmico. Edgar Morin enfatiza essa
idéia mostrando que o ser humano não é só fruto de fatores fisiológicos, mas
também de influências culturais, sociais e físicas, abrindo assim o leque de
vetores que implicam no que somos. A fragmentação do saber pela ciência é um
tabu a ser quebrado pela teoria da complexidade, pois são todos pontos da mesma
teia; a visão holística propõe uma reintegração dos saberes, uma pesquisa mais
profunda e abrangente, um distanciamento da alienação. Em um sistema caótico
temos a junção de estâncias vistas pelo pensamento linear como inconciliáveis e
até mesmo contraditórias, nela, a medicina se encaixa com a engenharia, a
matemática com letras e a ciência com a religião; no caos, a verdade está
intimamente ligada com o erro e é isso que bota a baixo conceitos até então
defendidos tão veementemente pelo paradigma cartesiano-linear.
A teoria
do caos está sendo usada com muito sucesso por economistas e empresários na
bolsa de valores, uma vez que lida com sistemas complexos e detém uma lógica
não-linear. Ora, é notório que os Estados estão sujeitos à "mão invisível" do
mercado, sendo este o ponto convergente de toda a dinâmica mundial atualmente:
Agora sabemos que o Iraque não apresentava qualquer ameaça a "paz mundial" e que
não tinha armas de destruição em massa, então porque foi destruído? Porque tinha
petróleo. A Coréia do Norte não tem petróleo e detém bombas nucleares, então
porque não é atacada? Apesar de esse raciocínio depender primeiramente de uma
lógica clássica, os fatores caóticos são inerentes, pois o petróleo é uma das
base do imperialismo dos E.U.A, sem ele o arranha-céu pode cair (qualquer
semelhança não é mera coincidência) e com ele toda a estrutura econômica
presente em Wall Street.
A teoria do caos acredita que, ao mudar as
condições iniciais de um sistema estará comprometendo o todo, pois a parte detém
o todo e vice-versa. Assim como o indivíduo é fruto de seu meio, também o meio é
fruto dos indivíduos que o compõem e é essa relação de mútua interferência que
faz da complexidade algo tão caótico e frágil. Em "1984", Winston é o que
chamamos de ruído, uma tendência que aparece para apresentar uma nova forma de
se ver a realidade, é uma instituição transformadora e libertária e, como não
poderia deixar de ser em um universo autoritário e monocromático, acaba por ter
seus ideais destruídos e sua existência sufocada. Outro exemplo de ruído é o
personagem nietzschiniano Zaratustra, o qual isola-se do mundo em uma caverna
durante dez anos, meditando sobre a verdade, a natureza e o ser humano.
Zaratustra tem um verdadeiro êxtase ao olhar para o nascer do Sol e decide
espalhar sua sabedoria para com os seus semelhantes. Nem precisamos dizer a
frustração e decepção deste personagem ao aplicar sua filosofia aos ditos
"animais de rebanho"; a semelhança de Zaratustra com Cristo é proposital, já que
Nietzsche sempre defendeu que o único cristão de verdade teria morrido na cruz.A
questão do ruído é essencial ao sistema, pois leva à tona uma revisão do que até
então foi praticado, uma revalorização de valores. A relutância do sistema e das
pessoas em aceitar tais propostas é natural, pois abala estruturalmente seus
ideais e sonhos, é um balde de água fria que nem todos estão dispostos a
receber.
O indivíduo como ruído
É importante ressaltar que, em um
mundo objetivo, que segue uma linha reta, a manifestação de gostos e pensamentos
individuais é vista como ameaça ao status quo, o "espírito de rebanho" se faz
necessário e não o "espírito-livre". Instituições como a moda, igreja e ciência
estão certamente reunidas em um mesmo saco, pois compartilham dos mesmos
princípios, detém em seu âmago a mesma essência deturpada da subjetividade.
Imaginem uma pessoa que faça questão de usar somente as roupas que lhe são
confortáveis e que acha bonitas, não acredita que haja um caminho padronizado
para o céu e que duvida dos métodos de verificação da ciência; esta seria um
ruído, uma mancha no belo quadro da realidade, uma micro tendência de autonomia
e autognose, estaria se expressando em sua maior potência. Isso não quer dizer
que o contrário não possa ser verificado como expressão de subjetividade, pois
os fatores que influenciam a formação do sujeito são por demais caóticos e
complexos, reduzi-los a meia dúzia de princípios seria uma limitação do
espírito.
Todo indivíduo se caracteriza como um ruído em potencial, uma
vez que tem em suas mão uma característica única: a singularidade de sua
existência. A crença seria um reflexo de sua projeções no mundo, uma forma de se
expressar externamente, não pode ser pensada como uma negação do ser. A dinâmica
da realidade está em constante e perene mutação e desenvolvimento, sufocar
expressões de subjetividade deve ser visto como o maior dano ao ser humano. O
ruído, assim como o indivíduo, são expressões do novo e do libertador. Tanto
Winston em "1984", quanto Zaratustra ou Cristo fizeram sua parte ao afirmarem-se
em seu mais puro estado de consciência e sofreram muito com tal escolha, porém,
estes serão lembrados pelos espíritos póstumos que detém dentro de si uma chama
que se recusa a apagar.No livro de Orwell, Winston acaba sendo preso pela
polícia do pensamento e sofre uma lavagem cerebral combinada com tortura que
acabam por destruir seu ideal de liberdade; Zaratustra é expulso da cidade onde
pregava por um palhaço e tem como seu único discípulo um cadáver; Jesus morre na
cruz e tem sua ideologia deturpada e distorcida.
A mancha no quadro
serve para que, a partir desse "erro" ou "defeito" uma nova ordem nasça e com
ela um novo paradigma; o ruído na música é um grito de mudança, de que a partir
daqui o desejo de transcendência se faz necessário. Se o tijolo fala e o muro dá
um grito é mister que sejamos tijolos, pois as ovelhas balem em uníssono e por
isso as tosamos para que possamos nos aquecer no inverno. O indivíduo é um ruído
em potencial e lançar-se ao mundo é um desafio de máxima projeção, de máxima
afirmação da vida.
Fernando Radin Bueno
Fonte: http://www.duplipensar.net/george-orwell/2004-09-caos-1984.html

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