Clínica Psicológica Integrare

 

 

Eliana Guimarães

Sidney Rosa Cunha

 Psicólogos Clínicos

 

 

A arte de engolir sapos
Por Jorge Carlos Costa


Vítima de estase, você tende a permanecer rigidamente agarrado às posições adquiridas. No casamento, no trabalho, na vida em geral. Você racionaliza assim: "É, não posso mais me arriscar. Só eu sei o que passei para chegar aqui. Agora vou agüentar firme, não tanto porque gosto disso aqui, mas porque é a melhor posição, a mais segura que pude atingir na vida"...

Mas, por outro lado, nesta posição segura você está constantemente atualizando todos os seus medos. Parado, sem querer assumir riscos, sem nunca dizer claro SIM ou NÃO para não complicar-se, você faz com que todos os seus medos se façam presentes. Como? Dou um exemplo: estou parado no meio de uma avenida super-movimentada, carros passando por todos os lados, duro de medo de ser atropelado, e esse medo não é uma alucinação minha. Se fico ali parado, corro mesmo o risco de ser atropelado.

Na minha volta a vida, que é movimento, não pára. Dentro de mim as coisas não deixam de brotar. E eu, a pretexto de manter um equilíbrio penosamente adquirido, não quero mais me mover para não perdê-lo. É aí é que vem o paradoxo: é agindo assim que eu arrisco a perder tudo, ou a viver medroso e depressivo. Porque a vida não pára de fluir e se eu não vou pra frente, vou pra trás. Se eu não avanço, regrido.

Pior: na crispação de manter este equilíbrio rígido, eu vou renunciando aos meus próprios meios de expressão. Não vou exercendo gestos, talentos e lutas fundamentais para aquela segurança que vem do crescimento pessoal. Passo a viver aparentemente seguro, mas constantemente deprimido. Porque estou continuamente renunciando à livre expansão e manifestação daquilo que não pára de brotar dentro de mim. E não me dou conta de que tudo o que eu tenho de bom - inclusive esta posição que não quero largar - eu só tenho por causa daquilo que um dia permiti que brotasse de mim. Agarrado no fruto do meu risco, não quero arriscar mais, e me deprimo impedindo que a vida que há em mim continue passando para fora.

Por exemplo: você, depois de muito batalhar, consegue um emprego muito cobiçado. Você faz tudo para não por em risco sua relação com o chefe. Nunca diz, sim nem não. Não se exprime, controla seus talentos, não dá opiniões muito pessoais. Resultado: se colocando nesta atitude de rígida dependência, você está começando a perder o emprego. Na medida em que você não cria liames de enfrentamento, de criação e afirmação com seu chefe, aí que você está sendo posto fora, por mais que o apavora a situação de um novo desemprego.

O indivíduo estásico é aquele que quer ficar eternamente agarrado num trapézio a 10 metros do solo. Só há uma solução: balançar o trapézio, por mais que custe. Só assim ele chega num lado ou no outro, onde vai encontrar uma corda ou a mão de alguém para descer. Nada: ele prefere agüentar firme e se esborrachar lá embaixo.

A ilusão de agüentar firme em situações de rigidez estática, é de fato uma ilusão porque, quanto mais parado eu fico, mais frágil e ameaçado eu me torno. Quanto mais ameaçado, mais inexpressivo, mais duro, mais sem criatividade. E o processo se prolonga. Quanto mais inexpressivo, mais parado e assim por diante. E qual é a saída?

A saída é uma profunda humildade. Eu não posso ser com sucesso outra coisa que não seja eu mesmo. E eu sou o meu talento, a minha capacidade de inventar coisas, de improvisar coisas. A sociedade à minha volta insufla de todos os modos a competição. Há gente atrás de mim e na minha frente. Mas eu só posso ser aquilo que eu sou e de acordo com isso tenho que viver.

Se eu me expressando como sou, perco este emprego, devo, reconhecer que eu, do jeito que sou, não tive capacidade para me manter naquele emprego.

Para libertar-se da estase, portanto, é preciso ter coragem de ser, de correr o risco de ser aquilo que na verdade sou. De olhar e dizer SIM para aquilo que eu não quero. E crescer agüentando as conseqüências disso.

Não posso negar algumas leis da vida. Psicologicamente, não posso negar as leis que me levam a uma existência fecunda. Não posso negar, por exemplo, que para estar num lugar devo renunciar a estar em outro. Não posso dizer sim e não ao mesmo tempo diante da mesma coisa. Se eu não arrisco perder nada, não posso ganhar nada. Se eu não consigo renunciar a nada, nunca vou ter nada. Não posso curtir o sol e trabalhar numa mesma tarde.

Se não assumo o sim ou o não, nunca vou estar em lugar nenhum, não vou ser ninguém. Ou melhor; vou ser um apavorado, ligado à vida por relações fracas, vagas, gelatinosas. Então só me resta viver olhando para os lados para ver como os outros estão fazendo e fazer igual. Assim me confundo na multidão, na grande multidão de cordeiros obedientes e famintos: me apago nela para sobreviver em paz.

E isso me parece tragédia final: não estou nem nos meus pés nem na minha cabeça, incapaz de dizer um sim ou não, de perder ou de ganhar. Só me resta então cair nas mãos do primeiro guru que me diga o que fazer, como prostituta que não pode viver sem gigolô.

Dou um exemplo conjugal destas confusões protetoras que eu crio para não me libertar do falso e rígido equilíbrio da estase. Se eu não sou capaz de dizer claramente o que eu gosto ou não gosto em minha mulher e de ouvir o que ela quer ou não quer de mim, vamos morrer ambos numa relação monótona e sem graça... Se eu às vezes sou incapaz de dizer não e correr o risco de que ela se separe de mim, nunca vou ter uma verdadeira relação com ela.

 Se eu não sou capaz de assumir os riscos da fome, não vou conhecer a saciedade. Se eu vivo barganhando acordos de medo que ela vá embora, nunca vou descobrir que na verdade não me interessa nem me faz feliz estar com uma mulher assim. Ela também vai estar insatisfeita o tempo todo se não agir da mesma forma comigo.

Se eu não sou capaz de arriscar o meu relacionamento com a minha mulher, também não sou capaz de tê-lo. Se eu não sou capaz de dizer sim ou não para o meu chefe, não vou ser capaz de manter o meu emprego, qualquer emprego. Vou ter é que viver de barganhas, como um pequeno vigarista dando oportunidades a que grandes vigaristas se formem à minha volta.

Não é preciso ser machão para ter essa coragem de ser. Pelo contrário, tenho que ser tão humilde a ponto de reconhecer: sou fraco, não posso tolerar por muito tempo situações forçadas. Não posso viver conformado entre o sim e o não. Que senão um dia arrebento.

Uma outra forma de libertar-se da estase é ser humilde o suficiente para precisar dos outros. Se eu não vou criando liames, cada vez mais fecundos e nutritivos com os outros, vou ficando como um cactus no deserto, isolado e facilmente eliminável. Temos necessidade da presença do outro, como de alimento.

Mas precisamos estabelecer com os outros uma economia de trocas muito forte e substanciosa. Não confiar nas trocas fáceis. As trocas mais desafiantes são as que na verdade nos vão modificar. E são bem diferentes das trocas de sedução. A sedutora troca sedução por carinho, por dinheiro, por mera presença. Na sedução não há troca de conteúdo. Um vai permanecer espoliado. Ou ambos vão permanecer famintos. Ou apenas trocar charminhos que não levam a nada. Como as trocas entre os índios e os portugueses: ouro por quinquilharias.

O que liberta da estase são as trocas desafiantes: aquelas nas quais eu preciso aprender. Sei que o outro tem algo que vai me modificar, tenho que aceitar o incômodo de não permanecer o mesmo.

Você que está insatisfeito mas seguro num equilíbrio feito de estase e medo, se pergunta: e quem me garante um novo equilíbrio em bases mais fecundas, expressivas, e por isso mesmo mais arriscadas? Ora, essa segurança feita de medo e isolamento não leva a nada em termos de felicidade pessoal e nem coletiva. E não é tão segura assim. Afinal foi o medo e o isolamento que criaram o mundo onde já há cerca de 50 toneladas de TNT para cada habitante da Terra, em caso de conflito mundial. Não é melhor expor-se a outras formas de equilíbrio?

 


 

 

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